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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

fugaCIDADEs

Uma ave passava

lenta e solene

na tarde aveludada

de um Setembro oblíquo

deixando no ar

gestos perfeitos

de um equilíbrio inato.

 

À sombra das poucas nuvens

traçava esquissos

de parábolas e ogivas ambíguas.

 

Animava-a, contudo, a beleza ingente

duns gestos gritados

na certeza inexorável

de uma liberdade absoluta.

 

J. M.

 

fugaCIDADEs

 

No escuro translúcido do tempo

restam vaga-lumes artificiais
que impedem o pensamento
(grave e duro contratempo!)
de mergulhar nas metáforas existenciais.
E do subconsciente diluído
chegam Platão, Aristóteles, Zenão,
Epicuro e tantos outros mais
em suas cavernas e mundos ficcionais
produtos da noê , da paixão

que, na vida, arrastam o coração.
 
J. M.

fugaCIDADEs - O largo

O LARGO

 

Tudo se resolveu partir naquela tarde.

O Largo ficou triste, solitário e temeroso.

No silêncio ouvia-se um respirar afogueado

revolvendo-se  num pavor misterioso.

 

Ergueu-se, de repente, um grito vermelho

(o silêncio fugiu branco e veloz)

inerte, inócuo e pervertido

grito de loucura de um mundo  a sós.

 

J.M.

 

fugaCIDADEs

As andorinhas espreguiçavam-se

na manhã fresca de Julho

estupefactas com o nevoeiro circundante

e preparavam-se para partir

quando lhes chega de súbito

o sol de um sorriso perturbador.

Afinal deram-se conta

que o Verão mal tinha começado.  

 

 

J. M.

 

fugaCIDADEs

Neste Verão abrasador comi gelado

e abafei a noite torturante de angústia.

Abanado na paixão louca do momento,

viajei pela noite, sombra do tempo…

Mágica, na liquidificação da humidade,

sobre o envelope deixado na mesa,

passeia-se uma mosca nojenta,

como a política tardia do Verão,

entusiasmada de loucuras ambíguas

de sexo e SIDA à mistura…

Canetas de reclame ambíguo

fabricando clientes a engano…

De Massamá, sei o tempo de nós,

fechado na memória esguia de Verão…

Já nada é o que era, na efemeridade

das horas, grávidas de cinzento.

J. M.

[Se fosse hoje o verso 10 poderia falar da gripe A; na altura em que escrevi o poema a "coqueluche" do Verão era mesmo a SIDA! Sinais dos tempos!]

 

fugaCIDADEs

Quando  eu  morrer...”

 

 

                                               (A M.S.-C.)

 

Se eu morrer sozinho, não se importem.

É assim que eu quero morrer.

Deixem-me gozar mais este prazer só,

porque solitário é que estou bem.

No meu funeral não quero ninguém,

ouviram: NINGUÉM!

Se em vida ninguém me quis

e isolado e sozinho fui feliz,

agora não serve de nada

irem em multidão anonimada

atrás das tábuas do meu caixão

a carpirem amizades fingidas

que em vida nunca senti.

Dêem-me mais esta consolação:

continuem lá as vossas vidas

e deixem-me partir sozinho como vivi.

J.M.

 

fugaCIDADEs

CIDADE

 

A cidade é um chão              de culturas variadas

é fermento corado                 na masseira de suores

e vida fertilizante                    poema de dias melhores

é pastor de muitas vidas         rebanho de mil cabeças

esperanças semi - desfeitas    glórias bem apregoadas.

 

A cidade é projecção            da luta continuada

que todos os dias renasce      na certeza do entardecer

porém ao alvorecer               quando o sol se levanta

há uma angústia latente          no coração dos homens.

 

A cidade é malícia                com bondade à mistura

é antro de solidão                 ou bar/café de frescura;

lógica entrelaçada                 nos esgares da paixão

onde perdura a noite             na aurora do coração.

 

J M

 

fugaCIDADEs

Embalado nas brisas estivais

e nas modorras de um Julho esquisito

luto contra a sonolência de uma tarde quente

amenizada pela brisa fresca do nordeste.

O planalto estende-se assolapado

à torreira do mormaço pós meio-dia

e as árvores gritam ensimesmadas

pela gota de água perdida.

Esparramados pelas sombras das raras plantas

os gados enganam-se na miragem

de uma frescura aparente saída da terra

avidamente sequiosa do licor cristalino.

Só o bicho homem na sua racionalidade

ilude pelo sumo ou pela cerveja

o calor tórrido de um Verão obsidiante.  

 

J. M.

 

[Começo hoje a publicação dos poemetos que em Fevereiro passado estiveram em exposição no Café Concerto e a que dei o título: "fugaCIDADEs". Faço-o a pedido de algumas pessoas que não puderam passar por lá na altura. Deixem passar a ironia de hoje ser Julho, mas estar a chover lá fora e ir assim contra o que diz o texto! Além disso o vento hoje é de Sudoeste!]

 

 

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