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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

ICARO - Sebastião Alba


para o Zé Craveirinha


Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.

Sóbrio e Puro - Sebastião Alba

 

Dei-vos cartas e rosas,
nunca me deram cartas e rosas;
apresentei-vos Beethoven,
nunca me apresentaram a ninguém;
dei-vos chocolates,
nunca me deram uma ameixa;
ao papá, dei-lhe versos,
deu-me um soco da última vez que o vi.
Ai! Vou procurar outra família, chega!
Só a poesia demora. Mas há um pacto entre nós: "sempre que estejas sóbrio e puro", disse-me ela aos 25 anos, "serei tua".
E eu não estou!
Tenho pouco dinheiro, poucos amigos - morrem com uma infidelidade quase descarada, e deixam-me cada vez mais só. E não resisto a saber como estão os outros, a ir vê-los, antes que me deixem, também.

 

 

(Escritor português, pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nasceu a 11 de Março de 1940, em Braga. Viveu em Moçambique. A 14 de Outubro de 2000, Sebastião Alba morreu atropelado em Braga.)

SONETO - Luciano Cavido


No vuelve el corazón a vuestro puerto.
Lo observo ya perderse en lontananza.
Esconde su destino algo incierto.
Grabado lleva un nombre: Esperanza.

El condenado a muerte, desespera.
Y viejo llora su Dorada Infancia.
El sabio, pide a gritos su ignorancia.
Y la semilla sufre ser madera.

Si tú supieras que cada flor que acechas
Con tu mirar, es flor irrepetible,
La vida no sería tan terrible

Como lo es…si acaso tú supieras.
Ni el arco vuelve a ver jamás su flecha,
Ni aquella flecha, a quien, por ella muera.

 

(Luciano Cavido nasceu em Buenos Aires; é músico, compositor e escritor argentino. http://www.lucianocavidoweb.blogspot.com/)

 

RÉQUIEM POR FEDERICO - Rafael de León


Lo mataron en Granada,
una tarde de verano
y todo el cielo gitano
recibió la puñalada...

Sangre en verso derramada,
poesía dulce y roja
que toda la vega moja
en amargo desconsuelo
"sin paño de terciopelo
ni cáliz que la recoja".

(Por cielos de ceniza
se va el poeta;
la frente se le riza
como veleta.
Toda Granada
es una plazoleta
deshabitada).

 


(Nasceu no dia 6 de Fevereiro de 1908, em Sevilha. Morreu dia 9 de Dezembro de 1982).

Rimas - Gustavo Adolfo Bécquer

Del salón en el ángulo oscuro,
de su dueña tal vez olvidada,
silenciosa y cubierta de polvo
veíase el arpa.

¡Cuánta nota dormía en sus cuerdas
como el pájaro duerme en las ramas,
esperando la mano de nieve
que sabe arrancarlas!

¡Ay! pensé; ¡cuántas veces el genio
así duerme en el fondo del alma,
y una voz, como Lázaro, espera
que le diga: «¡Levántate y anda!».

 

 

 

(Nasceu em Sevilla, a 17 de Fevereiro de 1836. Morreu a 22 de Dezembro de 1870) 

 

VIENTO DE NOCHE - Damaso Alonso


El viento es un can sin dueño,
que lame la noche inmensa.
La noche no tiene sueño.
Y el hombre, entre sueños, piensa.

Y el hombre sueña, dormido,
que el viento es un can sin dueño,
que aúlla a sus pies tendido
para lamerle el ensueño.

Y aun no ha sonado la hora.

La noche no tiene sueño:
¡alerta, la veladora!

 

 

(Poeta espanhol - Nasceu e morreu em Madrid - 1898 / 1990)

Bem, hoje que estou só e posso ver - Fernando Pessoa

 

 
 
Bem, hoje que estou só e posso ver 
      Com o poder de ver do coração 
Quanto não sou, quanto não posso ser, 
      Quanto se o for, serei em vão,
 
Hoje, vou confessar, quero sentir-me 
      Definitivamente ser ninguém, 
E de mim mesmo, altivo, demitir-me 
      Por não ter procedido bem.
 
Falhei a tudo, mas sem galhardias, 
     Nada fui, nada ousei e nada fiz, 
Nem colhi nas urtigas dos meus dias 
     A flor de parecer feliz.
 
Mas fica sempre, porque o pobre é rico 
     Em qualquer cousa, se procurar bem,  
A grande indiferença com que fico. 
     Escrevo-o para o lembrar bem.
 
 

 

Poesias Inéditas

Um coração de sangue - Daniel Faria


Um coração de sangue
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão

Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença

Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
– Mais interior do que o sangue no coração que me darás -

Peço um coração
Nuclear

Infância - Daniel Faria


e jogava o pião com Deus
enquanto minha mãe estendia roupa
e o meu pai mendigava o pão

e minha alegria nesse tempo
era muito próxima da dos meninos
e de Deus que ganhava sempre

e não sei quem perdi primeiro:
o pião ou Deus
apenas sei que Deus continua
a jogar com outros meninos

e que no Outono quando saio à praça
nos sentamos e falamos muito
do suave rodopiar das folhas



Daniel Faria
In “Oxalida”

Pórtico - Daniel Faria

Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda

 

(Daniel Faria nasceu em 1971, em Baltar, Paredes, Portugal. Licenciou-se em Teologia na Universidade Católica Portuguesa e em Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Recebeu vários prémios literários relativos a inéditos de poesia e conto.  Colaborou nas revistas Atrium, Humanística e Teologia, Via Spiritus e Limiar.  Faleceu, em 9 de Junho de 1999.)

 

[Para saber mais: http://www.danielfaria.org/]

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