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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Relendo V. Ferreira

“Sentado aqui nesta sala, relembro. Uma luz ténue de Janeiro entra sorrateira e ilumina-me. Traz-me à memória das origens e uma necessidade de vísceras percorre-me a mente. A luz coada das janelas arremete-me de frente e de súbito representa-me a aparição. Aos poucos, os espaços da vivência enchem-me a memória da alma.

Abro caminho ao longo desta memória e vou ao encontro de recordações dispersas. Esfumo numa névoa de olvido os espaços da revelação e eis que subitamente se me ergue, como num sonho desvelado, o sagrado espaço da montanha. Aparição fantástica na memória das origens, eleva-se-me na mente e reabre à luz duma forte Lua de Janeiro a identidade original da aldeia serrana. A Lua e a montanha desdobram-se em elementos singulares e irrepetíveis no decorrer de uma existência inquieta e inquisidora. Sobranceira à aldeia, sombreando-a e iluminando as pregas da mente imiscui-se sorrateira no íntimo de cada um e cresce enorme até à angústia existencial. Reaviva-se-me no pensamento uma passagem de infância pela Cova da Beira, rodeada pela imponência da Gardunha, vigilante e sentinela da ordem, do outro a imensidão da Estrela, altiva, soberba e independente.”

 

JM