miguel torga, vergilio ferreira

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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Torga

Espaço agreste e rude

do ser e da montanha,

o teu poema amanha

e transborda como açude

da TORGA agora colhida:

razão esperança, luz, vida!

 

J M

Se ...

Se me desses um raio de luar

esplêndido, claro, cristalino,

saberia o que poderia esperar

do teu brilho leve, diamantino;

 

se ao menos uma palavra ouvisse

dos teus lábios de coral tão fino

saberia que sempre que te visse

ouviria o grave som do violino;

 

se das tuas mãos um toque suave

sentisse brevemente, de passagem,

como um harmonioso voo de ave

trazido, subitamente, pela aragem;

 

e, se tu viesses, bela e radiante,

ter comigo em todo o teu esplendor,

então, mudado em feliz amante,

consagrar-te-ia um sincero amor.

 

J M

Tu

Eu que tenho o mar das palavras,

escritas ou faladas tanto faz,

só quero a terra que tu lavras

para nela semear branca paz.

 

E assim retribuir-te o carinho

que me dedicas constantemente

quando alisas áspero caminho

e me ajudas explicitamente.

 

Às vezes os escolhos são enormes

e é preciso haver comunicação;

sentinela serei enquanto dormes

e regarei a flor da comunhão.

 

J. M.

Lendo Cesário

Ela passa "aromática e normal"

diz Cesário em "Deslumbramentos":

só pode ser ela, a magnífica, a tal

que traz ao poeta milhares de tormentos!

 

Ela é a cidade destruidora

que obsidia o poeta e o prende

mas é também a dominadora

a quem masoquisticamente se rende!

 

E lá está ainda o café devasso

e a actriz em ligeiros pés de cabra

por detrás de um vidro ténue e baço

à espera que a porta se lhe abra.

 

JM

Outono

Chegou:

Via-se nas gotículas do nevoeiro,

- finas farpas ferindo a pele

com o frio matinal;

também o vento, sorrateiro,

sacudia algumas folhas cor de mel

que tombavam no chão, afinal;

mesmo os teus olhos afanosos

que faiscavam nos outros dias

hoje estavam incertos.

 

Ah! outono dos saudosos!

voltaste com tuas fantasias

sonhadas de olhos abertos!

 

J M 22.09.2016

Gratidão

Agora que finalmente os exames chegaram ao fim e o ano letivo está quase "extinto", vou partilhar uma surpresa que muito me comoveu. Esta foi especial, mas seria injusto se não referisse outras que não partilho aqui por motivos óbvios! Foi um ano produtivo e que me deixou muitos momentos de alegria com as várias turmas com quem partilhei nove meses de sucessos. É sempre bom e motivador trabalhar com jovens que sabem ser generosos como muitas vezes nós, adultos, já não sabemos ser. Obrigado a todos pelos grandes e pelos pequenos gestos que o "nosso" dia a dia nos deu. Sede felizes!

11º C.jpg

 

Casa deserta - Mário Dionísio (1916)

 
Ah nada pior que a casa deserta,
sozinha, sozinha.

O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta…

Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
o vento soprando
e a chuva caindo, na noite caindo…

Há uma cancela que range nos gonzos
um velho cão de guarda que ladra sem motivo-
parece que é gente que vem a entrar…

E é só vento soprando, soprando
e a chuva caindo…

Mudaram muita vez as folhas da floresta.
Os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.

E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta…