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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

GOETHE 1

“Na verdade, de dia para dia vou notando, meu caro, como se é insensato ao avaliar os outros por nós próprios. E porque já tenho bastante trabalho comigo mesmo e este coração é turbulento que chegue – oh! de bom grado deixo os outros seguirem o seu caminho, assim me deixassem também seguir o meu.”

J W Goethe, A paixão do jovem Werther, Bertrand

GOETHE

“Que bom é o meu coração ser capaz de sentir o prazer simples e inocente do homem que traz para a mesa a couve que ele próprio cultivou. Mas não é só a couve; ele é capaz de voltar a gozar, num único momento, os dias, a bela manhã em que a semeou, as tardes amenas em que a regou e se comprazia em vê-la ir crescendo sempre.”

 

J W Göthe, A paixão do jovem Werther, Bertrand

A Nossa Maior Crueldade é o Tempo

A nossa maior crueldade é o tempo. Como um fabricante de armadilhas desajeitado que acaba sempre prisioneiro das engrenagens que produz, também nós inventamos o tempo e nunca temos tempo. Os nossos relógios nunca dormem. Quantas vezes o tempo é a nossa desculpa para desinvestir da vida, para perpetuar o desencontro que mantemos com ela? Como não temos diante de nós os séculos, renunciamos à audácia de viver plenamente o breve instante. A imagem de crono, devorando aquilo que gera, obsidia-nos. O tempo consome-nos sem nos encaminhar verdadeiramente para a consumação da promessa. Nesse sentido, o consumo desenfreado não é outra coisa que uma bolsa de compensações. As coisas que se adquirem são naquele momento, obviamente, mais do que coisas: são promessas que nos acenam, são protestos impotentes por uma existência que não nos satisfaz, são ficções do nosso teatro interno, são uma corrida contra o tempo. A verdade é que precisamos reconciliar-nos com o tempo. Não nos basta um conceito de tempo linear, ininterrupto, mecanizado, puramente histórico. O continuum homogéneo do tempo que a teoria do progresso desenha não conhece a rutura trazida pela novidade surpreendente. E a redenção é essa novidade. Precisamos identificar uma dupla significação no instante presente. O presente pode ser uma passagem horizontal, quantitativa, na perspetiva de uma realização entre este instante e o que lhe sucede. Mas o presente tem também um sentido vertical que requalifica o tempo, abrindo-o à eternidade. É o tempo qualitativo, epifânico.

José Tolentino Mendonça, in 'A Mística do Instante'

A poesia quer-se a horas decentes

                                                  para o Luís Filipe Cristóvão

 

Éramos os últimos

no café quando decidimos

regressar.

 

Os nossos passos — trocados

pela hora a mais que a lei do tempo

impõe — percorreram as ruas

desertas, onde a qualquer momento

esperei ver um coiote

atravessar-se no caminho,

não perguntes porquê.

 

No hotel entrámos a rir,

a falar alto.

 

Evocávamos sem saber

as ninfas desse rio Tago

cujo nome soa melhor

em português.

 

Até que alguém apareceu

e pediu silêncio.

 

Por qualquer motivo tínhamos esquecido

que a poesia quer-se

a horas decentes.

 

manuel a. domingos, em Sulscrito, Revista de Literatura, nº 2, Faro: ARCA – Associação Recreativa e Cultural do Algarve, 2008, p. 12.

ORLA MARÍTIMA


O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo das avenidas
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
Gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida

Ruy Belo

Algumas Proposições com Crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

*Desesperança

Essa criança esquelética e nua

que encontramos às vezes por aí,

chama-nos egoístas a mim e a ti

quando nos cruzamos com ela na rua!

 

O rosto ansioso,

a avidez do olhar,

as rugas da face,

a tristeza da pele,

atiram-nos pedidos

em apelos mudos

no sulco profundo

da sua voz sumida.

Suas mãos ósseas

rasgadas nos caixotes

e que no lixo sobrevivem,

levantam-se caladas

numa prece angustiante,

num apelo premente

que os humanos não ouvirão!

 

Criança! Agora apenas criança!

Mais tarde quiçá marginal,

mero mas impressivo sinal:

o mundo é sem-esperança!

 

J M

Rosto

Como gotas de ouro transparente

as lágrimas caem dos meus olhos:

uma após outra e outra ainda.

Em cada uma delas há mil recordações

um rosto e uma saudade!

Caprichosamente juntas formam uma vida

uma desilusão, um amor … perdido.

 

A chuva intensa bate furiosamente nos vidros

e as lágrimas do meu rosário sem fim

caem lenta e silenciosamente

na folha branca da escrita.

 

(De tudo apenas resta

uma mancha indistinta.

 

Do teu rosto também apenas resta

uma mancha na minha imaginação.)

 

J M

(Recuperado do fundo da gaveta)

Diária

Há perfumes matutinos

no ar fresco da manhã

há chilreios e há trinos

na voz dos passarinhos

bela, alegre e louçã.

 

Traz gravada, lá no fundo,

a beleza de dias de primavera,

os sonhos de um sono profundo

com alguns desejos imersos

no começo de uma nova era.