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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

A cidade

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A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança  a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância  e a palavra medo.

A cidade é um saco  um pulmão que respira
pela palavra água  pela palavra brisa
A cidade é um poro  um corpo que transpira
pela palavra sangue  pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

                  José Carlos Ary dos Santos

FLORES DO VERDE PINHO

 

 

Ó meu jardim de saudades,

Verde catedral marinha

E cuja reza caminha

Pelas reboantes naves…

 

Ai flores do verde pinho,

Dizei que novas sabedes

Da minha alma, cujas sedes

Me perderam no caminho!

 

Revejo-te e venho exangue;

Acolhe-me com piedade,

Longo jardim de saudade

Que me puseste no sangue.

 

Ai flores do verde ramo,

Dizei que novas sabedes

Da minha alma, cujas sedes

Ma alongaram do que eu amo!

 

- A tua alma em mim existe

E anda no aroma das flores

Que te falamdos amores

De tudo o que é lindo e triste.

 

A tua alma, com carinho,

Eu guardo-a e deito-a, a cantar,

Das flores do verde pinho

- Àquelas ondas do mar.

 

              (Afonso Lopes Vieira, in País Lilás, Desterro Azul)

(Im)perfeitos

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 [Foto de Augusto Ferreira]

 
Por momentos apetecia suspender o tempo
e voltar à manhã da manhã
resgatar a geada matutina
o sorriso alvar do melro descarado
bicando a brancura frígida persistente
que resiste ao sol inverniço, penitente
e traquinas; resgatar o saber de alma feito
procurar o sentimento feliz ou imperfeito
de nos inteirarmos humanos serenos
de sermos grandes sendo pequenos.
 
10.01.2018
 
J M
 

AS MÃES

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 (1915 - 2012)

 

as mães fazem remendos bonitos
em almas rasgadas
com linhas que arrancam do peito
 
as mães sangram sem que se veja
colocam as mãos nos seus colos já vazios
e esperam que regresse um sorriso que as cure
 
as mães alimentam-se de pequenas palavras
{que quase nunca dizemos}
e de abraços
{que quase nunca damos}
 
as mães iludem a fome
{que poucas vezes matamos}
lembrando as canções de embalar
que já não ouvimos
 
as mães são presente
passado e futuro sempre presentes
até ao último suspiro 
curam sempre sempre sempre
mais do que podem
 
e quando estendem os braços
as mães são a casa 
de onde nunca partimos 
 
as mães são eternas 
{também morrem as mães?}
e amamos as mães e a sua magia 
sem nunca haver tempo para lho dizermos...
 
Sónia M
 
[Roubado daqui: http://soniagmicaelo.blogspot.pt/2017/05/as-maes.html]

SOLIDÃO

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(1931 - 2007)

A maior parte das vezes não abre a janela: 
senta-se no velho poial, como um resto de musgo, 
e deixa que os olhos passem no vidro, 
visitando-se mais uma vez. As coisas,


gradualmente, configuram-na, desde aquela hora, 
e quem a procura, sentindo-a no fundo das águas, 
não lhe pergunta pelo marido. 
O relicário de pau-santo fere-lhe

a solidão de semente abolida, 
já o arco de si própria. 
Pudesse ao menos saber para onde irão varrer


o que ficar da sua sombra, quando vender a quinta. 
Para junto dos limoeiros, sonha. 
enquanto a alma escorrega, docemente.

 

António Cabral

 

Pórtico

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(1920 - 1982)

 

Outros serão

os poetas da força e da ousadia.

Para mim

— ficará a delicadeza dos instantes que fogem

a inutilidade das lágrimas que rolam

a alegria sem motivo duma manhã de sol

o encantamento das tardes mornas

a calma dos beijos longos.

 

(Um ócio grande. Morre tudo

dum morrer suave e brando...)

 

Que os outros fiquem com o seu fel

as suas imprecações

o seu sarcasmo.

Para mim

será esta melancolia mansa que me é dada pela certeza de saber

que a culpa é sempre minha

se as lágrimas correm ...

 

João José Cochofel

Desaparecido

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 (1907 - 1949)

 

Sempre que leio nos jornais:

«De casa de seus pais desapar’ceu...»

Embora sejam outros os sinais,

Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,

Que por caminhos meus e naturais,

Do meu veleiro, que ora os outros movem,

Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;

Vencido, embora, por contrário vento,

Mas desprezasse, consciente e forte,

O porto do arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!

- Livre o instinto, em vez de coagido.

«De casa de seus pais desapar’ceu...»

Eu, o feliz desaparecido!


Carlos QueirósDesaparecido e Outros Poemas

Soneto tremente

 

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Sou o dos desesperos enfadados.

Há na minh’ alma hortências a fluir.

Se eu pudesse deixar os meus cuidados

Ia-me repousar, ia dormir!

 

Pressentem-se na luz uns flébeis fados

Como coisa que em breve vai cair…

Eu sinto a dor dos ser’s inanimados.

Eu sinto tudo o que quiser sentir!

 

Esta sede sem fim de analisar

Acaba sempre em pré-neurastenia.

- Não mais me comover! Não mais pensar!

 

Fechar os olhos, sem força, parar…

- Que bom viver um sono de água fria,

Com a alma meia morta, a desfocar...

 

Cristovam Pavia

Feliz 2018!

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Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento

Fernando Pessoa

...

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Boas Festas para os leitores do que por aqui vou pondo! Com Miguel Torga, claro! Votos de boa companhia da família e de um bom Natal na paz e na alegria do Nascimento!