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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Poesia

“A POESIA É O MISTÉRIO DE TODAS AS COISAS” (Garcia Llorca)

 

A poesia é inútil, dizem alguns maldispostos e desagradados com a vida. Enganam-se. A poesia é a vida. Está todos os dias ao nosso lado. Partilha os nossos êxitos e as nossas desilusões. Aplaude-nos as alegrias mais leves ou as mais intensas. Reforça-nos o ânimo quando as horas são mais amargas. Caminha connosco cada segundo das 24 horas da plenitude diária. Acama-se quando nos acamamos. Sacia-se quando nos saciamos. Mas também anda esfomeada quando as palavras nos fogem e nos fazem negaças. Só temos de saber dar por ela e aproveitar o que nos oferece.

A poesia é tudo o que quisermos. É o desejo que faz nascer a esperança. É a esperança que alimenta a vida. É a vida que cada dia nos abraça. É o abraço que nos mima e nos acalenta. É o calor que anima a alma. É a alma que nos faz amar. É o amor que nos faz crescer. É o crescimento que nos amadurece e nos ajuda a suportar a realidade prosaica quando a angústia nos cerca. Mas também é o grito de revolta, a rebeldia que faz avançar o mundo, a ousadia que arrisca a juventude.

A poesia não é um Dia: são 365 dias de esperança.

 

21.03.2014 JM

A (im)perfeição dos dias

Há dias em que o sol, quando nasce, nos acorda;
há dias em que as horas são ânsias nascidas na alma;
há dias em que os nervos em franja acalmam facilmente;
há dias em que os outros nos fazem companhia e nos abraçam;
há dias em que o bom humor é facilmente atingível;
há dias em que o mesmo nevoeiro constrói muitas alegrias pouco passageiras;
há dias em que os ossos exultam até à medula;
há dias em que as ideias rebentam por todos os lados;
há dias ....
 
 
JM

 

a (im)perfeição dos dias.jpg

 Como se aproxima o dia da poesia se houver interessados em adquirir, informo que chegaram alguns exemplares.

Prece

Senhor, sinto-me hoje perdido:

já não há paz, não há sossego,

vivo na inquietude, desiludido

com o homem que só impõe o medo.

 

Do oriente ao ocidente tudo muda,

a fragilidade é nossa companheira,

a rapacidade é comum e pontiaguda,

 a vida é efémera e passageira.

 

Que esperança, então, pode sobreviver

neste universo corrupto em decadência?

O dinheiro, as finanças e o poder

vão destruindo os limites da decência.

 

Resta a esperança de que a chama vinda

das cinzas leves da Fénix imolada

renasça a ordem e mantenha ainda

a hipótese da ressurreição desejada.

 

J M 03.2017

Pilar

candeeiro CA.jpg

(Foto de Carlos Adaixo)

 

Um pilar apagado

sustenta o céu cinzento

entrecortado

por olhos de vento

espreitando

desperto entre nuvens

entrelaçando

os dedos divinos

sistinos

(de Miguel Ângelo).

 

Sentado no banco sombrio

Deus prepara a recriação

de outro Adão

mais humilde e sóbrio.

 

J M 10.03.2017

A ti, mulher!

Onde estou, espero por ti e amo-te. Olho para ti, e o meu olhar
beija-te. Canto, e é a ti que canto. O destino costuma sorrir-me
com assombro, agora com um recado: aquele que mais ama é sempre mais feliz. Entretanto, sinto que o meu corpo, que tem a idade do mundo, comemora também a alegria da descoberta do fogo. E isso diz-me que, provavelmente, já te amo desde o tem-
po em que as estrelas ainda não repetiam o teu nome.

*

Joaquim Pessoa, in "Ano Comum".

Medo

Deixei-me levar p’la aventura do medo,

vivi experiências desertas de fugas,

fechei as portas à vida e à morte,

tranquei-me por dentro do desespero.

 

Vigiei pedaços de aventura louca,

corri paixões à espera de lucro,

no fim de tudo não ficou nada

porque a ânsia era desmedida.

 

Gastei pedaços à espera do tempo

mas este fugiu para fora de mim

e na tarde infinita do sábado imenso

encontrei-me só num mundo-penedo.

 

Louvei aos montes a sua grandeza

cantei à vida a grande desgraça,

perdi-me tonto na hora da natureza:

fiquei parado na aventura do medo.

 

J M

30 anos! (2)

O pintor morreu

envolto em rosas de maio,

olhando os meninos do Bairro Negro,

cantando os cravos rubros

de um abril florido.

 

Em Grândola poeta-libertador,

dum povo adormecido,

na longa noite de 33;

em abril soldado em flor

que desabrochou a 24,

numa manhã ingente e fresca

florida em liberdade.

 

Na noite, cantor-maldito

de vampiros e eunucos

cuja voz rompeu os tímpanos

de absurdos assombros:

Peniche, Caxias, Tarrafal.

 

Em Coimbra, amigo do vento

levado do Choupal à Lapa

nas brisas ternas dos sonhos

até aos filhos da madrugada.

 

Em Portugal poeta-músico

cujo machado não corta

a enraizada lembrança

gravada a palavras-fogo

no peito da nossa memória.

 

E se alguém se enganou

com seu olhar modesto

verá correr as águas claras

dos mananciais da música

que guardam perenemente

a timbrada voz universal

de abril-liberdade!

 

J M (23.02.1987)

Promessas

Caminho na luz débil do entardecer

ao longo da praia do teu corpo;

no horizonte ouvem-se a descer

as pregas do teu silêncio. Porto

 

de abrigo, o teu aroma perfumado

rescende à seiva da terra ávida

no pousio de um inverno gelado

preparando o renascer de calma vida.

 

Rebentos, as tuas mãos remetem

às colheitas fartas lá para setembro;

agora, vejo teu perfil estampado

 

no início de nova criação e lembro

as primaveras havidas no passado.

As curvas dos beijos tanto prometem!

 

J M - 19.02.2017