miguel torga, vergilio ferreira

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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

...

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos...

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos...

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

Antero de Quental, in "Sonetos"

Árvore antiga

Aquela árvore antiga

a cuja sombra brincávamos,

crianças incautas,

hoje perdeu o vigor

e os braços mal seguram os pardais

e as raízes já não bebem

a linfa diáfana do ribeiro.

 

Espantalho rígido

apenas amedronta os piscos

quando, no inverno, o vento respira

ofegante das nortadas gélidas.

 

A infância fugiu também

arrastada nos temporais da vida

e o que fica são felicidades ambíguas,

de uma floresta decadente

deteriorada pelas esperanças amagadas,

pelos rigores do frígido inverno,

pelos rigores do tórrido verão.

 

E se assim é a vontade das Parcas

 - crianças adulteradas –

colhamos o momento,

a esperança e a moderação.

 

J M

...

No silêncio da ribeira

jaz o resto da brincadeira

que a criançada armou

durante a tarde inteira

em que o pião rodou.

 

Mas o cair da noite

e o escuro vespertino

fizeram perder o tino

e não há quem se afoite

a procurar, ou acoite

o desamparado menino.

 

A escuridão tudo cobriu

e o silêncio emergiu

estendendo-se abafador;

foi então que da noite saiu

um grito de raiva e dor

e, numa luz cega, explodiu

cegando tudo ao redor.

 

J M

...

As mãos escorriam lustrosas

pelas palavras arredias

tentando domar a realidade cruel

 

os refugiados entrechocavam

inábeis e férteis os silêncios breves

prolongamento irascível do tempo incapaz

 

e nos interstícios dos meses

o mediterrâneo sangrento

explodiu em mortes inúteis.

 

J M

Ad hoc

Os espaços embicados da vida

que o tempo amarelo vai carcomendo

deixam restos espalhados pela casa;

 

(e as ratoeiras vazias

testemunham a esperteza

informática dos ratos)

 

e os minutos comem as palavras

dos alfarrábios

tornando-as caruncho.

 

J M

Perguntas

Inócuas mas subsersivas,

as perguntas atiravam-se

à face dos políticos:

as respostas espertas ou "ingénuas"

sempre dirigidas

para não saber o sabor da questão.

Há, porém, perguntas perversas

que exigem respostas prévias,

segurança que à liberdade

não é dado ter.

A liberdade quer-se franca,

frontal e assumida,

opção e arbítrio

num espaço de solidão.

 

J M

 

Crepusculares

Caía o sol sobre o poente

roubando a luz à natureza

formava-se uma paisagem diferente

desfazia-se a natural singeleza.

 

As aves regressavam aos seus lares

As pessoas recolhiam aos seus ninhos

as aves gorjeavam aos pares

as pessoas refaziam seus caminhos.

 

A noite cobrindo tudo de escuro pranto

acolhia anseios adiados, eminentes …

Nalguns lares ouvia-se sentido pranto

 

Noutros ciciavam-se preces de crentes

noutros ainda em recônditos e escusos cantos

saciavam-se desejos inadiáveis, prementes.

 

De que memórias se faz a saudade!

De que lembranças se constrói nossa vida!

 

O que o tempo nos acrescenta com a idade

vai roubando aos sentimentos. Perdida

a inocência inicial da ingenuidade.

 

J M

Torga

Espaço agreste e rude

do ser e da montanha,

o teu poema amanha

e transborda como açude

da TORGA agora colhida:

razão esperança, luz, vida!

 

J M

Se ...

Se me desses um raio de luar

esplêndido, claro, cristalino,

saberia o que poderia esperar

do teu brilho leve, diamantino;

 

se ao menos uma palavra ouvisse

dos teus lábios de coral tão fino

saberia que sempre que te visse

ouviria o grave som do violino;

 

se das tuas mãos um toque suave

sentisse brevemente, de passagem,

como um harmonioso voo de ave

trazido, subitamente, pela aragem;

 

e, se tu viesses, bela e radiante,

ter comigo em todo o teu esplendor,

então, mudado em feliz amante,

consagrar-te-ia um sincero amor.

 

J M

Tu

Eu que tenho o mar das palavras,

escritas ou faladas tanto faz,

só quero a terra que tu lavras

para nela semear branca paz.

 

E assim retribuir-te o carinho

que me dedicas constantemente

quando alisas áspero caminho

e me ajudas explicitamente.

 

Às vezes os escolhos são enormes

e é preciso haver comunicação;

sentinela serei enquanto dormes

e regarei a flor da comunhão.

 

J. M.