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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

OS PASSARINHOS

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Os passarinhos
Tão engraçados
Fazem os ninhos
Com mil cuidados.

São p'ra os filhinhos
Que estão para ter
Que os passarinhos
Os vão fazer.

Nos bicos trazem
Coisas pequenas
E os ninhos fazem 
De musgo e penas.

Depois lá têm
Os seus meninos
Tão pequeninos
Ao pé da mãe.

Nunca se faça
Mal a um ninho
À linda graça
Dum passarinho.

Que nos lembremos
Sempre também
Do pai que temos
Da nossa mãe.

Afonso Lopes Vieira.

Poema do coração

 

coraçao-foto.jpg

 

Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração, 
e também a Bondade, 
e a Sinceridade, 
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração. 
Então poderia dizer-vos: 
"Meus amados irmãos, 
falo-vos do coração", 
ou então: 
"com o coração nas mãos". 

Mas o meu coração é como o dos compêndios 
Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral) 
e os seus compartimentos (duas autículas e dois ventrículos). 
O sangue a circular contrai-os e distende-os 
segundo a obrigação das leis dos movimentos. 

Por vezes acontece 
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados, 
e uma lâmina baça e agreste, que endurece 
a luz dos olhos em bisel cortados. 
Parece então que o coração estremece. 
Mas não. 
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático, 
que esse vento que sopra e que ateia os incêndios, 
é coisa do simpático.Vem tudo nos compêndios.

Então, meninos! 
Vamos à lição! 
Em quantas partes se divide o coração?

António Gedeão

Dança do vento

dança do vento.jpg

 

O vento é bom bailador
baila, baila e assobia,
Baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz às flores bailando: 
-Bailai comigo bailai!
E elas, curvadas, arfando
começam, débeis, bailando,
e as suas folhas tombando
uma se esfolha, outra cai
e o vento as deixa, abalando
-e lá vai!..

O vento é bom bailador, 
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor

E diz às altas ramadas: 
-Bailai comigo, bailai!
E elas sentem-se agarradas,
bailam no ar desgrenhadas,
bailam com ele assustadas,
já cansadas, suspirando,
e o vento as deixa, abalando
-e lá vai!...

O vento é bom bailador, 
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz às folhas caídas: 
-Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
as folhas, por ele erguidas,
pobres velhas ressequidas
e pendidas como um ai,
bailam, doidas chorando,
e o vento as deixa, abalando,
-e lá  vai! ...

O vento é bom bailador, 
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz às ondas que rolam: 
-bailai comigo, bailai!
E as ondas no ar se empolam,
em seus braços nus o enrolam,
e batalham,
e os seus cabelos se espalham
nas mãos do vento, flutuando,
e o vento as deixa, abalando
-e lá vai!..

O vento é bom bailador, 
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz à chuva caindo: 
-bailai comigo, bailai!
E ao de ela seu corpo unindo,
beija-a na boca, sentindo
que ela o abraça sorrindo
e desmaia, volteando,
e já verga ao beijo, e cai,
e o vento a deixa, abalando
-e lá se vai!..
 
Afonso Lopes Vieira

AutoCrítica - Alexandre O'Neill

 
Cesário diz-me muito:gostava de ferramentas,como eu,
e vê-se que para ele o ser feliz
era lançar,originais e exactos,os seus alexandrinos,
empunhar ferramental honesto
cuja eficácia ele sabia que
não vinha da beleza,mas da perfeita
adequação.
Não tem halo,tem elo e o seu encadeado
é o verso habilmente proseado.

(Que feliz eu seria,ó prima,se o Cesário
me tivesse deixado uma garlopa!)
António Nobre,embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele(ai de mim,coitadinho!)

(E em conclusão do megalómano discurso,
ó prima,um bilhete-postal para o Pessoa,
a quem devemos todos tanto,a prima inclusive!)

Muito querido Pessoa,saberias agora
que não basta ser lúcido,merda,que não basta
a gente coser-se com as paredes
e cercar de grandes muros quem se sonha,
que não basta dizer basta de provincianos!

Feira Cabisbaixa(1965)
 

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Ao Longe os Barcos de Flores - Camilo Pessanha

(A Ovídio de Alpoim)

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranqüila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...
 
Camilo Pessanha

Três Rosas - Eugénio de Castro

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Sempre, mas sobretudo nas brumosas 
Horas da tarde, quando acaba o dia, 
Quando se estrela o céu, tenho a mania 
De descobrir, de ver almas nas cousas. 

Pendem deste gomil três lindas rosas; 
Uma é rosada, a outra branca e fria, 
Rubra a terceira; e a minha fantasia 
Torna-as humanas, vivas, amorosas. 

Sei que são rosas, rosas só! mas nada 
Impede, enquanto cai lá fora a chuva, 
Que a minha mente a fantasiar se ponha: 

Por ser noiva a primeira, é que é rosada; 
Branca a segunda está, por ser viúva; 
A vermelha pecou ... e tem vergonha! 

Eugénio de Castro, in 'Antologia Poética' 

O Juramento do Árabe

Baçus, mulher de Ali, pastora de camelas,

viu de noite, ao fulgor das rútilas estrelas,
Vail, chefe minaz de bárbara pujança,
matar-lhe um animal. Baçus jurou vingança;
corre, célere voa, entra na tenda e conta
a um hóspede de Ali a grave e inulta afronta.
- "Baçus!" - disse, tranquilo, o hóspede gentil -
"Vingar-te-ei com meu braço: eu matarei Vail".
Disse e cumpriu.

Foi esta a causa verdadeira
da guerra pertinaz, horrível, carniceira,
que as tribos dividiu. Na luta fratricida,
Omar, filho de Anru, perdera o alento e a vida.
Anru, que lanças mil aos rudes prélios leva
e que em sangue inimigo, irado, os ódios ceva,
incansável procura, e é sempre embalde, o vil
matador de seu filho, o tredo Mualhil.
Uma noite, na tenda, a um moço prisioneiro,
recém-colhido em campo, o indómito guerreiro
falou severo assim:
- "Escravo, atende e escuta:
Aponta-me a região, o monte, o plaino, a gruta
em que vive o traidor Mualhil; dize a verdade;
dá-me que o alcance vivo, e é tua a liberdade!"
E o moço perguntou:
- "É por Alá que o juras?"
- "Juro!" - o chefe tornou.
- "Sou o homem que procuras!
Mualhil é o meu nome: eu fui que despedacei
a lança de teu filho e aos pés o subjuguei!"
E, intrépido, fitava o atónito inimigo.
Anru volveu:
- "És livre! Alá seja contigo!"
 
Gonçalves Crespo 

Alguém

 

Para alguém sou o lírio entre os abrolhos, 
E tenho as formas ideais de Cristo; 
Para alguém sou a vida e a luz dos olhos, 
E, se na Terra existe, é porque existo. 

Esse alguém, que prefere ao namorado 
Cantar das aves minha rude voz, 
Não és tu, anjo meu idolatrado! 
Nem, meus amigos, é nenhum de vós! 

Quando, alta noite, me reclino e deito, 
Melancólico, triste e fatigado, 
Esse alguém abre as asas no meu leito, 
E o meu sono desliza perfumado. 

Chovam bênçãos de Deus sobre a que chora 
Por mim além dos mares! esse alguém 
É de meus olhos a esplendente aurora; 
És tu, doce velhinha, ó minha mãe! 

Gonçalves Crespo, in 'Miniaturas' 

Telúrica

No dia 12 de Junho participei com mais sete poetas numa sessão de poesia a convite da poeta da Guarda Maria Afonso. A sessão integrou-se no SIAC e teve lugar no auditório do IPJ. Fica o registo fotográfico.

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(Friso dos poetas participantes - foto Ana M. Neves)

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(A minha leitura - foto de António Prata)

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(Antonieta Pinto lendo um poeta ausente: o meu amigo Cristino Cortes - foto de António Prata.)

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 (Um aspeto do público.)

 

 

Pus a enxada à terra

do teu corpo

e fui cavando as sensações

abrigado pelo aroma

telúrico da serra

e pelas intensas emoções

da seiva e da goma

da arada primaveril:

esplendor total de Abril!

 

Das giestas dos teus braços

os enleios temperados

de sensuais abraços

enredam-nos os desejos

de frenéticos beijos

em longas sinestesias:

longas e graníticas alegrias.

 

J M

...

...

hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool – pernoita-se
onde se pode – num vocabulário reduzido e
obcessivo – até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir
apesar de tudo
continuamos e repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva – vamos pela febre
dos cedros acima – até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz / fogo fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial

 

Al Berto